Dentro do caderno, há uma entrevista comigo:
'Mais que poeta, sou um artista da palavra'Em maio, Marcelo Sahea fez o lançamento do livro nada a dizer em São Paulo, com direito a performance. Pela frente, o poeta programa eventos de divulgação em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília. Neste mês, também está previsto lançamento em Santa Maria. A data e o local ainda não estão definidos.
Na entrevista a seguir, Sahea fala sobre o novo livro, a influência da poesia concreta e sua busca pela superação da poesia escrita.
Diário de Santa Maria – Um livro com o nome nada a dizer (com letras minúsculas) sugere alguma provocação. Qual é a ideia do título? Marcelo Sahea - Poesia, por si só, já é provocação, não é? E uma das coisas que tenho aprendido e apreendido: quanto mais se diz, mais da poesia se dista. O título, que tenho definido desde que comecei a pensar o livro há dois anos, retirei de uma frase do poeta e compositor norte-americano John Cage: “Eu estou aqui/ e não tenho nada a dizer/ e estou dizendo/ e isto é poesia...”
Diário – Você busca algum objetivo ao perseguir os limites da linguagem? Sahea – Poesia é matéria viva, é organismo. Me interessa uma poesia contaminada por inúmeras formas de expressão, como música, arte sonora, artes visuais, eletrônica, arte digital, o que vier... E acredito que esse esforço que faço para ampliar a potência e o alcance do meu trabalho é sua característica mais forte. Para fazer uma poesia que seja original para mim e que me dê prazer, eu não posso pensar como um poeta, no sentido tradicional, engessado. Mais que poeta, me considero hoje um artista da palavra. Não sou um teórico, mas tudo que faço é extremamente pensado, ainda que eu utilize o acaso em minhas obras.
Diário – Qual sua relação com a poesia concreta, uma referência imediatamente percebida em sua produção? Sahea – O legado vale como impulso. Não é uma repetição. Mas isso acontece naturalmente. Não é uma preocupação minha, nem ao menos é algo de que tenho consciência. Como faço direção de arte e trabalho com arte visual, design e estou sempre mergulhado nesse universo, a coisa é mais latente, flagrante. A poesia concreta cumpriu seu papel. O momento é de olhar para a frente, e a pavimentação do terreno foi a contribuição que o concretismo deu para a minha arte.
Diário – A fotografia está presente em nada a dizer. Como você vê essa união com a poesia? Sahea – Uso a fotografia como suporte para os poemas-objeto. Não sou fotógrafo, não domino a técnica. O que faço é um registro dos objetos que crio. Tenho trabalhado com o suporte vídeo também, poemas e performances poéticas, revestidos ou não de paisagens sonoras e sons do acaso processados, registrados com o mesmo propósito.
Diário – O trabalho de performance poético-sonora, a exemplo de Pletórax, teve alguma influência em nada a dizer? Sahea – Total. O título mesmo e o poema visual da capa entregam isso. Este livro só não tem um CD, um DVD ou um pendrive encartado porque me faltaram recursos para isso. Os poemas despontaram a partir das minhas pesquisas e experiências no terreno da performance intermídia e da poesia sonora. Há textos nesse livro que foram escritos para o palco, mas que se sentiram à vontade no branco da página. E a outra parte é composta por poemas e textos que andavam dispersos desde 2005 e que decidi aglutinar em um suporte único.